NSLOD, projeto musical de Alcides Honório Junior, é o segredo mais bem guardado do Oeste. Falo da Zona Oeste de São Paulo, e do bairro à sua borda que cresceu a ponto de se tornar cidade satélite, Osasco.
Por algum motivo que me foge à razão, no entroncamento entre as décadas finais do século XX, havia ali um portal invisível que ligava o terminal de ônibus da Vila Yara, já quase na divisa com a capital, ao largo da Santa Cecília, no centro de SP, onde na época funcionava o Espaço Retrô, valente casa noturna de estética altamente alternativa. Seus programadores e DJs privilegiavam subgêneros do pop vanguardista do período, como o gótico, o industrial, as guitar bands, a EBM ou electronic body music, e o rock shoegazer.
O fato é que quase toda juventude com tendências ‘fora da curva’ criada em Oz, para os íntimos, mais cedo ou mais tarde se via nos domínios do Retrô. E, forjado naquele inferninho, Alcides, vulgo Garfield, confirma a regra.
Depois de várias estações, de trem e dos anos, ele começou a destilar as influências de tal ambiente em forma de canções. Num pique ‘underground worldwide’, rapidamente ressoou na Escandinávia. Porém, após o lançamento do álbum de estreia do NSLOD, Muzik Xperiments #1, em 2003, que transita da sonoridade orgânica shoegazer até a eletrônica abstrata, houve um hiato de duas décadas, imposto por trabalho no terreno da tecnologia, que também informa a sua música.
2023 marcou o lançamento de Muzik Xperiments #2, e a retomada de uma produtividade mais intensa, que deve culminar com o terceiro volume, previsto para novembro deste ano.
Porém, planos podem sofrer intervenção da vida a qualquer momento, a gente sabe. Nesse caso, veio pra bem... Em maio / 2025, durante o que seria só um teste do quarteto de sintetizadores Korg que Garfield agora possui, em ambiente premeditadamente fora da zona de conforto do artista, surgiu um punhado de tracks que se bastam por si. Nascia aí o EP agora lançado.
E, se as referências musicais mantêm a essência original no RG, o modus operandi e o equipamento apontam para o futuro. Mas mais importante: digital e distorcido, Anomalia no Campo Magnético apresenta um NSLOD completamente conectado com o momento presente. Em uma época em que a improvisação livre vem pautando cada vez mais a arte de nomes grandes como André 3000, Saul Williams e outros, Alcides soube aceitar o material que se manifestou em combustão espontânea.
Fica a sugestão para que, você que me lê, faça isso também: abrace o alcance dessa Anomalia nos seus ouvidos com a mesma naturalidade com que ela nasceu!
Rodrigo Brandão
@gorilaurbano